Como surgiu a moda no Brasil?

O grande salto

Se há sorte neste caso, ela repousa no feliz encontro de fatores que concorreram para que a moda feita no Brasil pudesse se emancipar e ser arremessada para além de nossas fronteiras. O descobrimento de modelos brasileiras, como Gisele Bündchen, Caroline Ribeiro e Fernanda Tavares, evidentemente atraiu o olhar estrangeiro sobre nós. O estabelecimento de um calendário de moda no país para dar uniformidade a iniciativas antes isoladas, a valorização da moda como negócio, a evolução do setor têxtil e a qualidade inquestionável da matéria-prima nacional também têm contribuído para a projeção interna e externa dos estilistas brasileiros.

Importante também é a divulgação espontânea de gente influente que simpatiza com as coisas do Brasil. Mario Testino, dos mais requisitados fotógrafos de moda mundialmente, é apaixonado pelo país. E a stylist e editora de moda Isabella Blow, que veio para a oitava edição do Morumbi Fashion, foi tomada de assalto pela contemporaneidade da criação nacional, frustrando a expectativa de encontrar aqui nada além de roupas de folclore. As matérias da jornalista inglesa do Sunday Times terminaram chamando ainda mais a atenção para o Brasil. Em 2000, ela retornou acompanhada de um grupo de jornalistas ingleses e franceses, ávidos em conferir se miss Blow carregou nas tintas ao alardear para a Europa a fecunda criação dos estilistas brasileiros.

A partir de então, a história da moda no Brasil nunca mais foi a mesma e os nossos criadores passaram a ter repercussão na imprensa especializada do mundo inteiro.

Acabou-se a ilusão de que bom é o que é importado. Finalmente, nossos criadores passaram a acreditar no fôlego da identidade brasileira para transpor fronteiras. A cada dia, fica mais remoto o tempo em que éramos copiosos plagiadores da moda européia e norte-americana. Entramos na era do estilo próprio, que se internacionaliza rapidamente, e do profissionalismo, sem o que os ótimos jeans da Ellus, Forum e Zoomp não teriam barrado a invasão de marcas de olho no mercado consumidor nacional, como a Levi’s.

O negócio Moda no Brasil

São Paulo já foi considerado o túmulo do samba, não tem praia, o carnaval é tímido, mas nenhum outro lugar do país reúne tanta gente daqui e de outros cantos do mundo. A megalópole é uma constelação de culturas e guarda o traço de cidade frenética, que não pode parar. A imprensa mundial a tem tratado como a capital latino-americana da moda, e nessa parte do continente atualmente não existe evento que possa ser comparado ao São Paulo Fashion Week em matéria de afirmação estética e realização de negócios.

A era contemporânea da moda brasileira começa em 1994, com o Phytoeorvas Fashion, que mostrava a criação de novos estilistas. Dois anos mais tarde, uma transformação substancial se dá com o Morumbi Fashion, versão inicial do São Paulo Fashion Week. Esses movimentos já anunciavam o impulso que teria a moda brasileira. O Brasil passa a contar com um calendário de moda e os lançamentos deixam de ser isolados, ganhando unidade. Os estilistas abandonam a preocupação com acontecimentos estrangeiros e se ocupam mais do desenvolvimento de seu próprio trabalho. São Paulo, então, sagra-se pólo irradiador da moda do Brasil e da América Latina para o resto do mundo.

O calendário existe há cerca de cinco anos, mas só recentemente adquiriu dimensão internacional. O São Paulo Fashion Week possui duas edições anuais, quando oficialmente lança coleções de inverno e verão para milhares de compradores. O evento – realizado no suntuoso prédio da Fundação Bienal, situado no belíssimo parque Ibirapuera – recebe centenas de convidados e atrai a atenção da imprensa mundial especializada: nos corredores do São Paulo Fashion Week, podem ser vistos enviados de jornais e revistas como Le Figaro, L’Officiel e Visionaire (França); Dutch (Holanda); Dazed & Confuzed e Sunday Times (Inglaterra); Corriere della Sera (Itália); Harper’s Bazaar (México); e Vogue (Rússia).

Suzy Menkes, no International Herald Tribune, fala que “uma brisa latina sopra por entre a moda neste momento”, invoca um maremoto chamado Alexandre Herchcovitch e atesta a hora de “silhuetas curvilíneas e de qualquer cor, desde que clara e exótica”. David Shah, editor da prestigiosa ViewPoint, uma publicação sobre marketing, publicidade e moda, afirma em entrevista que “o Brasil é realmente o lugar para se estar no momento”.

A boa fase da moda brasileira pode ser observada pelos atuais 25 cursos sobre o assunto e por empreendimentos como o Amni Hot Spot (considerado a evolução do antigo Phytoervas), que tem a finalidade de revelar a criatividade de jovens talentos do estilismo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Confecção (ABIT), entidade responsável pela intermediação de interesses e demandas do segmento com o governo, só o setor têxtil faturou US$ 2 bilhões em 2000. No ranking nacional, é a segunda maior indústria do país e o quarto produtor mundial. A ABIT informa ainda que, em 2001, o setor gerou cerca de 20 mil postos de trabalho. A indústria têxtil e de confecção responde por quase 5% do produto interno bruto (PIB) do país e emprega 1,6 milhões de pessoas. O Brasil é o terceiro país na produção de malhas e o sétimo em fios e artigos confeccionados. Sua posição no comércio internacional, porém, ainda é acanhada: pouco mais de 0,2% do total das exportações e importações.
Quem é quem na passarela

Mais do que os materiais artesanais ou tecnológicos, o que faz a diferença é a versatilidade e diversidade no seu uso, na composição dos tecidos e no jeito de criar moda. A força da nossa herança cultural tem servido de fonte de inspiração, como mostra o trabalho de Walter Rodrigues e Lino Villaventura, que souberam transformar a renda de bilro com originalidade na assimetria e contraste de cores e desenhos.

O apoio de empresas tem sido vital à projeção dos estilistas. Glória Coelho, Fause Haten e Alexandre Herchcovitch são exemplos de boa parceria com a Rhodia. Ao confeccionarem suas criações, esses e outros estilistas unem o talento à tecnologia de ponta da indústria têxtil. Projetos como o Amni Global Fashion servem para demonstrar o desenvolvimento da matéria-prima, a utilização de alta tecnologia no produto final onde entra a criatividade dos estilistas e, também, para incentivar a moda brasileira a se aprimorar e ser valorizada nacional e mundialmente.

Depois das top models, chegou a vez dos nossos estilistas. É a criação de moda brasileira entrando para o calendário internacional com passos firmes. Mas, antes de Herchcovitch e Icarius de Menezes participarem do Prêt-à-Porter parisiense; da grife M. Officer marcar presença no London Fashion Week e do estilista Fause Haten desfilar sua criação na Semana de Moda de Nova York, Ocimar Versolato, que trabalhou durante 14 anos em Paris e desenhou para a grife Lanvin, e Inácio Ribeiro, radicado em Londres e dono da marca Clements Ribeiro, que tem entre seus clientes Cameron Diaz, Madonna e Brad Pitt, podem ser considerados nossos primeiros embaixadores no mercado estrangeiro.

O intrépido Herchcovitch, que debutou no Phytoervas Fashion, apresentou três coleções em Londres, fez sucesso na estréia do calendário oficial de Paris em 2001 e este ano está comercializando suas coleções na Henri Bendel, conceituada loja nova-iorquina. O designer é conhecido pela irreverência e audácia nas cores e estampas. Amir Slama, estilista da grife Rosa Chá, que tem criações em pontos de venda nos Estados Unidos, Inglaterra e Japão, considera importante que a moda tenha uma linguagem particular e ao mesmo tempo global e aposta no futuro de produtos com bom design e qualidade.

Carlos Mièle, estilista da M.Officer, tem a brasilidade como tema recorrente nas últimas coleções. Desafiador, seu trabalho questiona o preconceito das elites brasileiras com a cultura popular. Mièle casa tecnologia de novíssimos materiais e artesanato e soma ambos a cores fortes, canutilhos e assimetrias. Sua roupa pode ser adquirida em Nova York, Paris e Hong-Kong. Fause Haten, dono de design arrojado misto de alta costura e prêt-à-porter, entrou no mercado dos Estados Unidos ao se envolver com a grife Giorgio Beverly Hills. Em 2000, arrematou o primeiro prêmio da ABIT Fashion Brasil e, no ano passado, 2001, desfilou sua coleção na Semana de Moda de Nova York.

Icarius de Menezes foi descoberto pelo bureau de imprensa Girault-Totem, que esteve no Brasil para levar alguns estilistas para a Europa. Icarius, então, mostrou seu trabalho à uma indústria de confecção belga, tornando-a sócia-patrocinadora. Reinaldo Lourenço é um dos nomes que faz furor no São Paulo Fashion Week. O designer afirma que não trabalha com estereótipo e sua roupa é para quem gosta de moda. Unanimidade nacional, ele conquista territórios internacionais, vendendo suas criações em 35 pontos no exterior.

Ronaldo Fraga vem do Phytoervas e é tido como o mais ‘cabeça’ dos estilistas da geração. Cria peças temáticas e conceituais, sem abandonar a idéia de fazer coisas para serem vestidas. A caçula Thaís Losso, aos 26 anos desenha uma moda de rua irreverente e original para a marca Cavalera, de Igor Cavalera, baterista do Sepultura. Tufi Duek, criou a marca Forum. Em 1981, inaugurou um showroom em Nova York e vende para 80 estabelecimentos norte-americanos. Chamou atenção inspirando-se em motivos nordestinos, cariocas e do Cinema Novo e entrou para o mercado internacional em 1998.

Tem ainda André Lima, Márcia Ganem, Mário Queiroz, Renato Loureiro, Ricardo Almeida e tantos outros que o mundo, se não ouviu falar ainda, não vai demorar muito a ver, vestir e admirar.

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